sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O girassol

para Garibaldi Otávio

Lá fora o sol
Com seu cheiro de vida
Aqui o tempo, os homens
As palavras ainda
No ventre
E essa felicidade
Triste e sola
De sangrar no escuro
Como quem liberta um deserto
No exílio

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tácito prazer



Não há céus nem lábios
Que meus dedos desconheçam

Em meu corpo descobriram
Mapas inteiros de países, mares, canteiros

As flores sem perfume
Os cactos, os loucos, jardineiros

As linhas da vida
Os pulsos cortados
Os punhos cerrados
As línguas mais putas

Homens e mulheres de todos os sexos
Pais, filhos, netos, suas casas, suas lutas

Assim brotaram asas
Assim aprendi a amar

Como quem doa a seiva da vida
Lambuzando as próprias mãos

domingo, 25 de outubro de 2009

Branca, branca

Para João, o cão debaixo da pele, de uma bailadora

A beleza lacerou
Todas as minhas facas

Ando por aí
Indefesa, ferida

E leve como a lâmina
Andaluzcinando e andaluzcinando-se

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Canto aos pés


Deram-me sapatos de chumbo
Acho que para descer do céu
Ou talvez para me proteger
Aí com pena, neles teci asas
Ainda hoje caminho descalça
Às vezes, quando me sou, vôo
Ah, os sapatos?

Já são pássaros

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O grito na voz do poeta de versos mudos

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Não estava pensando na felicidade, não costumo me concentrar muito nela, dá tristeza ficar querendo ver seu rosto aéreo e esparso. O sorriso se pintou naturalmente, como a alegria tácita e gritante das folhas de uma árvore que recebem sem esperar o afago de uma brisa calma num dia de calor, em brasa. Um sorriso lento, desse que não se faz de uma vez, vai se fazendo, se fazendo, calmamente, até dizer que sim.
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Um homem caminhava pela calçada. Vestia uma bermuda anêmica, já doente de tão gasta. A camisa afolozada de tanto repuxo sofrido cada vez que ele tentava assentá-la em sua imensa barriga. Na cara redonda estavam plantados olhos que em um minuto escancaravam o abrigo mais seguro. Olhos de alma vergada pela sabedoria da dor.
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O outro faz tempo que está na beira do rio, o cão sem plumas, contemplando a aorta triste, quase morta, em sua pungente luta para ainda alimentar as veias da cidade que não pára. Com sua cefaléia crônica, amado pela poesia constante em seu artesanato métrico.
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No mundo em volta, palavras, corpos, carros, movimentos desgrudados ainda.
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O homem tinha nas mãos alguns papéis velhos. Andávamos em direções opostas com um mesmo destino, porque João Cabral não estava entre nós dois por acaso. Eu timidamente fingia apenas passar. Ele parou, deu batidinhas no ombro do poeta, cumprimentou respeitosamente seu nariz com um beijo doce, e sentou ao lado. Tudo tão natural que meu passo ficou mais tímido de seguir do que de ficar. Sentei também.
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Ele apertou as folhas nas mãos e nos encarou como se estivesse oferecendo com prazer uma lasca do seu couro curtido: “Ia falar apenas com ele, mas já que você chegou, se sente sim, pode ficar. Podia contar a vocês do meu primeiro beijo, porque ali fui batizado poeticamente sem nem ainda ter conhecido a poesia mesmo. Mas depois que ela morreu, assassinada por meu pai, grávida pela primeira vez, resolvi não contar mais essa história. É como se todo o amor do meu peito tivesse se prendido para sempre à vida, digo à vida toda, a tudo que é vivo, como vocês aqui nessa rua, nessa manhã. Foi depois do acontecido. Cavei tão fundo em mim mesmo para achar algum resto de beleza que terminei tirando os entulhos do peito. Aí eu virei poeta, sabem como é, mas em segredo, porque minhas mãos são calejadas demais, minha pele muito marcada, meu corpo é pesado, não fico mesmo bonito segurando a caneta. Posso recitar um verso?”. Respondi que sim com a cabeça porque minha voz não cabia em mais nada.
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Silêncio. Não, silêncio e olhos, o que forma um monte de palavras. Versos inteiros latejavam em sua boca fechada pelas retinas. Seus papéis amarelados, intactos de tintas, uma língua feita apenas da vontade de dizer mais. Em volta o momento, a brisa, para sempre nossa, da rua, do rio, do fedor da cidade que nos lambe e nos devora para depois vomitar filhotes renascidos, repleta de pequenos pedaços de felicidade dispersos ao longo da estrada. Agora tudo grudado, inerente. O homem não sabia ler, nem escrever, mas sua poesia entontecia de tanta força.
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E a felicidade nos olhava também, com seu rosto aéreo e esparso, ali e além, de mãos dadas, dançando naturalmente com o grito, o azul e o desespero, o canto e o fato, o perdão e a faca. Girava tão rápido a roda que se calava todo sentido. Toda a transparência do mundo era revelada na rima de palavras desvestidas de letras e alfabetos. Lágrimas se erguiam ao infinito.
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Foi nessa hora que o sorriso se pintou inteiro por fim. Como se a tristeza também merecesse um aceno, um sim, a delicadeza de um toque, um afago, diante da imensidão da vida. Pedi que ele esperasse e fui em casa pegar meu João Cabral para ler uns versos ao seu ouvido. Quando voltei ao encontro, ele simplesmente já tinha partido.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Manga rosa


Sim azul, vem
Meu corpo te cabe
Sou feita de carne
E abrigo

Chega descalço
A fantasia de céu
Hoje se desveste
Em cada esquina

Não há perigo
São apenas seios

------------- línguas
E curvas talhadas
Pelo anjo negro

Pisa firme
Mas sem doer
Derramando as pedras
Os sussurros do leste
E as granadas
Em meus cabelos
Sujos e acesos

Sim, é noite
Eu sei
Ela não me deu escolhas
Não agora
Há fogo e perfume
Lavando meus pés
Todo santo dia

Respiro amarelos
E passos

Não giro como quem morre
Danço como quem mata
Assassina
Em latidos e gozos
À velha senhora

Trepando invisíveis
Com a suculência da fome
E a alegria fatal
De quem descobre o prazer
Na mangueira do quintal
Do mundo


(Granada - 19/08/09)

domingo, 2 de agosto de 2009

O perdão do primeiro anjo


Que morte?
Do que estás falando nuvem banal?

À noite tua saliva
Celebrando a vida

Agora o sol a facadas
Esculpindo meu corpo
Perfurando mapas
Arrancando com força
A pele antiga

Escorro na terra
A calda das brisas

Agora que o suor
Cheira a sangue e sal
E as asas descansam grávidas

Toda sombra em meu ventre
Qualquer sombra
É só um oásis